Dica de leitura – A força das pessoas comuns

Welinton Brunialti

Tomar ciência de que os seres humanos são interdependentes e agir conforme este preceito, sempre a procura do que é melhor do ponto de vista coletivo.

Read Time6 Minute, 14 Second

O consultor e palestrante em desenvolvimento socioambiental, Celso Grecco, dá dois exemplos de iniciativas idealizadas por pessoas, que sem muitos recursos, “arregaçaram as mangas” e contribuíram para um Brasil e mundo melhores

De acordo com o Ranking Mundial de Solidariedade 2018, publicado no final do ano passado e que se refere a 2017, o Brasil ocupa a 122ª posição entre 146 países avaliados. Iniciativa da organização britânica Charities Aid Foundation (CAF) e do Instituto Gallup, o ranking é divulgado anualmente, com base em centenas de milhares de entrevistas que medem o grau de solidariedade de cada país levando em conta três tipos de ações: ajuda a um estranho; doação de dinheiro; e doação de tempo (voluntariado).

O dado é alarmante, ainda mais à luz do que sustenta o consultor e palestrante em desenvolvimento socioambiental, Celso Grecco, na obra “A decisão que o mundo precisa – 7 caminhos para você sair da indiferença e fazer algo para o futuro da sociedade”. No livro, publicado pela Editora Gente, Grecco destaca a tendência ao individualismo na civilização atual e afirma, entre outras coisas, que a busca pela satisfação pessoal deve prioritariamente passar pela busca da satisfação coletiva, ou seja, pelo aprimoramento da vida em sociedade. Conforme Grecco, não é de muita valia ser alguém bem-sucedido em um mundo doente.

Que a vida no planeta terra não vai lá muito bem é só conferir nos diversos meios de comunicação em que abundam notícias sobre catástrofes ambientais, convulsões sociais e crises econômicas.

Para Grecco, a saída para estes problemas encontra-se na conscientização e na ação. Tomar ciência de que os seres humanos são interdependentes e agir conforme este preceito, sempre a procura do que é melhor do ponto de vista coletivo. Nesse ponto, o consultor e palestrante em desenvolvimento socioambiental destaca que não é preciso ser rico, famoso ou influente a afim de encontrar soluções para as mazelas que afligem o mundo. Basta mostrar-se incomodado e dar o primeiro passo, tendo em mente que uma colaboração pequena já é bem maior do que a indiferença.h

Combater a pobreza para curar a doença

Grecco cita em seu livro que uma maneira simples de aderir a uma causa social é através ,da profissão ou experiência de vida. No seu cotidiano, a pessoa sempre poderá encontrar alguma situação em que poderá ser útil através de conhecimentos técnicos e/ou teóricos previamente adquiridos. Foi o que ocorreu com a médica clínica geral, Vera Cordeiro. Atuando no setor de medicina psicossomática da ala de pediatria do Hospital Federal Público da Lagoa, na cidade do Rio de Janeiro, Cordeiro incomodou-se que crianças carentes atendidas no hospital sempre voltavam a ser internadas. Conversando com os familiares, descobriu que as doenças eram apenas a “ponta do iceberg” de um problema mais complexo. “A real causa eram as condições de vida a que estavam submetidas, como moradias insalubres e falta de alimentação”, conta.

Com o objetivo de acabar com o ciclo miséria – internação – reinternação – morte, Vera criou em 1991, a Associação Saúde Criança. A organização, que surgiu com 20 voluntários, coletados entre familiares, amigos e profissionais do Hospital Lagoa, tem como intuito principal ouvir as pessoas (familiares dos pacientes) do ponto de vista psicossocial e buscar soluções concretas para suas necessidades. Os voluntários detectam problemas como desemprego, condições precárias de moradias, fome, e colocam em ação o Plano de Ação Familiar. Este consiste em mapear os talentos e as potencialidades de pais e familiares e financiar um curso profissionalizante, para que eles possam exercer seus talentos e melhorar suas condições de vida. Os recursos foram obtidos inicialmente através de doações de voluntários.

Passados 28 anos de existência, a Associação Saúde Criança cresceu e conseguiu expandir sua atuação, com o auxílio de empresas e organismos nacionais e internacionais. Profissionalizou-se, entendendo que deveria atuar em cinco áreas principais: saúde educação, moradia, renda e cidadania. “Como a pobreza é multidimensional, se não atuarmos de forma multidisciplinar, com médicos, advogados, arquitetos, engenheiros e nutricionais, não atingiremos o cerne da inclusão social”, explica Cordeiro.

O sucesso da empreitada se reflete em seus números. A entidade já mudou diretamente a vida de 72 mil pessoas e teve seu projeto multiplicado em 23 hospitais públicos, de seis estados do Brasil. O Plano de Ação Familiar tornou-se política pública na cidade de Belo Horizonte (MG).  Além disso, outros empreendedores sociais entenderem o DNA do trabalho desenvolvido pela associação, difundindo seu método para diversos cantos do mundo, como Estados Unidos, alguns países da América Latina, África, Ásia e Europa.

Levar luz elétrica através de tecnologia simples

Um dos caminhos recomendados por Grecco em seu livro é transformar a indignação em dignidade, através da ética em ação. Foi o que a ONG Litro de Luz seguiu a risca, levando luz elétrica a comunidades locais que não possuem acesso adequado à energia elétrica, através de uma tecnologia simples composta de materiais como garrafas pet canos de PVC, painéis solares e lâmpadas de LED. “O objetivo é que seja uma solução que possa ser montada na comunidade, com o nosso auxílio, e que possa ser replicável”, explica a presidente da Litro de Luz Brasil, Laís Higashi.

A Litro de Luz é uma organização internacional, que opera em mais de 20 países, inclusive no Brasil, onde está presente em seis cidades: Brasília (DF), Campina Grande (PB), Florianópolis (SC), Manaus (AM), São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ). A equipe nacional é composta por 200 voluntários e já impactou diretamente a vida de mais de 13 mil brasileiros. De acordo com Higashi, a atuação da ONG passa pela disponibilização de três soluções principais: o poste solar (iluminação das ruas); lampião (solução portátil); e lâmpada interna solar (fixa na casa).

A organização social foi criada em 2014 e chegou ao Brasil em 2016, mas a ideia para o seu desenvolvimento surgiu alguns anos antes, em 2011, com o filipino Illac Diaz, que buscava soluções sustentáveis e baixo custo para gerar condições de vida melhores às camadas mais carentes da população de seu país. A forma encontrada por Diaz para, por exemplo, levar luz elétrica às famílias pobres foi através da lâmpadas de Moser, iniciativa desenvolvida pelo mecânico brasileiro Alfredo Moser, que durante um apagão ocorrido  em 2002 instalou garrafas de plástico em seu telhado para que funcionassem como lâmpadas de energia solar.

Ambas as iniciativas começaram a partir da percepção de seus fundadores em relação aos problemas sociais e econômicos que afligem os mais vulneráveis. Ambas as organizações se desenvolveram a partir da vontade de seus líderes e demais participantes em mitigar esse quadro de pobreza. Eles tinham dentro deles a chama da indignação e a certeza de que não é possível ser são em um mundo doente. Foram à luta e conseguiram cada um a seu modo devolver dignidade às pessoas mais vulneráveis, tornando a sociedade um pouco menos desigual.

Fonte: Mundo RH
0 0

About Post Author

Welinton Brunialti

Jornalista - MTB -0077859/SP
Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleppy
Sleppy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Subscribe US Now