Por que o país vendeu US$ 27 bilhões das reservas internacionais. E qual o impacto disso

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© Foto: ShutterStock

A alta do dólar nas últimas semanas provocou uma reação mais intensa do Banco Central para tentar controlar o câmbio. Ao contrário do padrão histórico de ação, que era o de negociar “swaps cambiais” (um tipo de venda no mercado futuro), o BC decidiu fazer leilões de venda à vista da moeda americana – o que significa que ele passou a vender dólares das chamadas reservas internacionais. Esse tipo de leilão, que não ocorria desde 2013, foi retomado em agosto deste ano.

As reservas do Brasil diminuíram com a iniciativa: desde 22 de agosto, o estoque encolheu em US$ 27 bilhões. Mas isso não significa que o governo esteja “queimando dólares” sem critério. Embora tenha vendido parte do “colchão”, o nível das reservas ainda é considerado confortável.

Em paralelo, a venda das reservas, pelo menos no contexto atual, tem a vantagem de reduzir a dívida pública e ainda representa uma economia de dinheiro com o chamado custo de “carregamento” desses dólares. Tal custo existe porque a taxa de juros que o governo paga captar recursos é maior do que o ganho com a remuneração das reservas (em geral o juro dos títulos norte-americanos). Esse “prejuízo” tem diminuído, graças à queda da taxa básica de juros (Selic), mas ainda é relevante.

Dados do Banco Central mostram que as reservas internacionais do Brasil somavam US$ 361,7 bilhões em 12 de dezembro. No pico histórico, em junho, essas reservas haviam alcançado o montante de US$ 390,5 bilhões. Até então, as poucas intervenções que ocorriam no mercado cambial eram com a venda das chamas “linhas com recompra”.

Foi a partir de agosto que a estratégia mudou e os leilões à vista começaram. De lá para cá, esse tipo de intervenção se tornou tão frequente que o BC até mudou sua política de comunicação para informar os volumes aceitos em cada operação. E isso ocorreu porque o dólar começou a disparar, por uma série de fatores.

Os leilões à vista são vistos como uma intervenção mais contundente no mercado cambial que os swaps cambiais. Além de atender à demanda do mercado financeiro por dólares, a venda à vista ajuda a baixar as cotações da moeda norte-americana, ou no mínimo limitar sua alta, ao sugerir qual é o patamar mais ou menos “aceito” pelo governo para a moeda norte-americana.

Qual o tamanho adequado das reservas

Ficar atento ao nível das reservas é importante, porque elas são o principal ativo da União. “Essas reservas são um importante seguro contra crises externas. Quando as crises acontecem, as reservas permitem minorar os efeitos adversos sobre a economia doméstica. Mais ainda. A própria existência de reservas em nível adequado ajuda a prevenir o surgimento de crises”, explica Josué Pellegrini, consultor legislativo e diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), na nota técnica “Custo de carregamento e nível adequado das reservas internacionais”.

Para aferir se as reservas estão no nível adequado existem várias métricas. Uma delas é a do FMI, que considera adequado quando o montante das reservas varia de 100% a 150% em relação ao nível obtido com a aplicação de sua métrica. Seguindo essa base de cálculos, o Brasil alcançou os 100% no início de 2007 e os 150%, no fim de 2011.

Ao levar em consideração os 100%, o nível adequado de reservas é de US$ 236,9 bilhões. Já em relação aos 150%, o montante é de US$ 355,4 bilhões. Portanto, ainda que o Brasil tenha promovido essa venda à vista de dólares, a situação ainda é confortável.

A diferença entre a venda de dólares à vista e os “swaps cambiais”

Segundo o Banco Central, o governo ficou de 2013 até meados deste ano sem realizar leilões à vista de dólares. A opção nesse período era pela negociação de swaps cambiais. Esse tipo de contrato geralmente é firmado com instituições financeiras e outros agentes que precisam de proteção contra o aumento do dólar.

“A autoridade monetária, durante o período acertado, arca com a variação cambial mais um prêmio e recebe em troca o Certificado de Depósitos Interbancários (CDI), que fica normalmente muito próximo da Selic”, explica Pellegrini. Um exemplo: se, durante o período contratado, a desvalorização do câmbio mais o prêmio for de 5% e o rendimento do CDI for de 3%, o Banco Central paga à outra parte 2% aplicado sobre o valor contratado.

Mas essa estratégia mudou. “Ao longo de 2019, especialmente no segundo semestre, tem prevalecido um quadro de maior demanda por dólar. Além da persistência de elevado grau de incerteza quando à evolução da economia internacional e doméstica, as empresas estão antecipando a amortização das respectivas dívidas externas, por conta da redução do custo do financiamento no mercado interno”, explica Pellegrini. As vendas à vista começaram em 22 de agosto, quando as reservas estavam em US$ 388,9 bilhões. Até 12 de dezembro, dado mais recente, o volume encolheu em US$ 27 bilhões.

O economista alerta que é preciso acompanhar por quanto tempo persistirá essa demanda extra por dólar e qual será a estratégia do Banco Central, inclusive para uma eventual decisão por reposição das reservas, em caso de alterações na situação do mercado e câmbio.

“A venda de reservas tem o efeito colateral desejável de reduzir a DBGG [dívida bruta do governo geral] e ainda há espaço até que o saldo caia abaixo do nível adequado. Há também a economia dada pelo custo de carregamento líquido ainda que esse seja decrescente. Contudo, cabe lembrar, não há como garantir que o custo líquido será positivo no futuro próximo por conta das incertezas acerca da trajetória da taxa de câmbio”, ressalta.

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