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Entre o “refugo humano” e o “homo sacer”

Refugo humano: pessoas que o sistema não sabe onde colocar

Por Redação 111–126, Protestantismo em Revista

A crescente sensação de que parte da população mundial se tornou descartável — social, política e economicamente — ganha novo fôlego em um estudo assinado por Celso Gabatz e Joici Antonia Ziegler, publicado na Protestantismo em Revista. O artigo aproxima dois dos conceitos mais contundentes da crítica social contemporânea: o “refugo humano”, de Zygmunt Bauman, e o “homo sacer”, de Giorgio Agamben.*

Os autores investigam como esses dois pensadores, vindos de tradições distintas, convergem na análise de vidas que se tornam vulneráveis, invisíveis e politicamente desprotegidas. Em um mundo marcado pela hiperconectividade, pela aceleração econômica e pela precarização das relações sociais, o estudo aponta que a produção de “excedentes humanos” deixou de ser um efeito colateral e passou a ser uma engrenagem estrutural do sistema.

A sociedade que produz descartáveis

Para Bauman, a modernidade líquida transformou o consumo em critério de pertencimento. Quem não consegue acompanhar o ritmo — seja por pobreza, migração, idade, doença ou exclusão estrutural — é empurrado para a condição de refugo humano: pessoas que o sistema não sabe onde colocar e, por isso, tenta esconder.

Gabatz e Ziegler destacam que essa lógica não se limita à economia. Ela se infiltra nas políticas públicas, na gestão urbana e até nas relações afetivas, criando zonas de abandono e populações inteiras consideradas “sobrantes”.

A vida reduzida ao limite do humano

Agamben, por sua vez, parte da figura do homo sacer, o indivíduo cuja vida pode ser tirada sem que isso seja considerado crime ou sacrifício. É a vida nua — desprovida de proteção jurídica, política ou simbólica.

O estudo mostra como essa categoria se manifesta hoje em campos de refugiados, periferias militarizadas, prisões superlotadas, populações em situação de rua e grupos submetidos a estados de exceção permanentes.

Convergências que revelam uma crise global

A força do artigo está na articulação entre Bauman e Agamben. Segundo os autores, ambos descrevem mecanismos contemporâneos de desumanização que, embora operem por vias diferentes, produzem efeitos semelhantes:

  • vidas descartáveis,
  • corpos expostos à violência,
  • cidadanias suspensas,
  • existências reduzidas ao mínimo biológico.

A análise sugere que a sociedade atual não apenas tolera essas zonas de exclusão — ela as produz e administra.

Um chamado à responsabilidade ética

Gabatz e Ziegler concluem que enfrentar essas formas de desumanização exige mais do que políticas públicas pontuais. Requer uma revisão profunda das estruturas que definem quem merece proteção, quem tem direito à cidade, quem é visto como cidadão e quem é tratado como sobra.

O estudo, ao aproximar Bauman e Agamben, oferece ao debate público uma lente poderosa para compreender os desafios éticos e políticos do nosso tempo.

.Texto Original: https://revistas.est.edu.br/PR/article/view/4080/3547-Publicado em 04-06-2025)

*Gabatz, C., & Ziegler, J. A. (2025). Percepções acerca do “refugo humano” de Sygmunt Bauman e o “homo sacer” de Giorgio Agamben. Protestantismo Em Revista44(1), 111–126. Recuperado de https://revistas.est.edu.br/PR/article/view/4080

FONTE: Protestantismo em Revista

 

 

Redação Portugal

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